2000 — O ano que mudou a minha vida

Sobre aquela garota de 14 anos que assistia Laços de Família enquanto estudava para ser alguém na vida

Foto de uma mão feminina escrevendo em um caderno.
Photo by fotografierende on Unsplash

Para quem não está por dentro das novidades televisivas, hoje a Rede Globo voltou a exibir a novela Laços de Família no Vale a Pena Ver de Novo. Eu já não consigo mais acompanhar nada na TV (o streaming me deixou mal acostumada a assistir qualquer coisa sem precisar me prender a horários pré-definidos), mas vi alguns tweets sobre o assunto e fui lançada em um poço de nostalgia. Para ser justa, não é difícil me lançar em um poço de nostalgia, mas tenho um carinho especial pelo ano 2000. O ano que mudou a minha vida.

A lembrança da novela, seus personagens ou suas músicas — que, na época, eu precisava passar horas esperando para gravar na fita cassete, mas hoje estão bem guardadas em minhas playlists do Spotify — me leva a uma cadeira do cursinho onde entrei como uma adolescente chata de 13 anos e saí com um futuro que eu jamais poderia imaginar.

Quem me conhece hoje sabe que minha carreira é uma parte muito importante da minha vida, mas não faz ideia de como ela começou. Bom, eu vim de família pobre, mas sempre fui a filha mais velha e inteligente, a que ia vencer na vida para ajudar os pais. E nada do que eu sou ou tenho hoje teria sido possível se não fosse por aquele dia em que duas pessoas entraram na sala de aula e me entregaram um folheto.

Foi em março de 2000. Eu poderia descobrir o dia certo, pois está tudo registrado em agendas (tive duas naquele ano), mas eu não quero me perder ainda mais nas memórias. Em algum momento do mês de março do ano de 2000, eu estava na escola — oitava série do Ensino Fundamental — e duas pessoas entraram na sala para distribuir folhetos de um cursinho pré-CEFET. Eu me lembro bem do quão fascinada fiquei com aquilo, porque eu nunca tinha ouvido falar em curso técnico ou daquela escola que parecia maravilhosa.

Aos 13 anos, eu não tinha muito do meu futuro planejado. Sabia que terminaria o EF dali a alguns meses. Também sabia que eu queria fazer faculdade de Direito e viver a fantasia de salvar a humanidade dos criminosos em tribunais como os que eu via nos filmes. Hoje, tendo alguns amigos advogados, posso dizer com segurança que, felizmente ou infelizmente, a realidade da maioria é bem diferente da versão menos sangrenta de que existia na minha cabeça.

Foto da Viola Davis como Annalise Keating no tribunal em How to get away with murder, com a Liza Weil no fundo.
Foto da Viola Davis como Annalise Keating no tribunal em How to get away with murder, com a Liza Weil no fundo.
Não dá nem pra imaginar uma Cíntia advogada

Parece exagero quando eu digo que um folheto mudou a minha vida, mas não é. Naquela época, eu não fazia ideia do efeito borboleta que aquilo desencadearia para mim, mas fazer a prova para entrar no cursinho (que, ironicamente, acabou nem sendo o mesmo do folheto) foi uma das decisões mais importantes da minha vida, porque dali pra frente, o caminho foi ficando cada vez mais certo.

Como eu cheguei na Informática, porém, ainda é outra história. Outra decisão importante, mas que poderia ter dado muito errado.

Eu nunca soube lidar bem com a indecisão, meus amigos mais próximos sabem bem o quanto isso me deixa nervosa. Quando outra pessoa está indecisa, eu decido; quando eu estou indecisa, eu também decido, mesmo correndo o risco de me arrepender depois. Assim, eu tive que escolher qual curso técnico gostaria de fazer, embora, na verdade, eu só quisesse uma escola boa para cursar o Ensino Médio. Fiquei entre dois: Turismo, que era o único curso mais próximo da área de Humanas, e Informática Industrial, que me parecia (não é) genérico o bastante para eu aprender alguma coisa que fosse útil na área que eu pretendia seguir depois. Ambos eram muito concorridos, mas Informática era o pior. Como eu era a aluna que tirava as maiores notas nos simulados, meus colegas me desafiaram a passar para o curso mais difícil. É óbvio que eu tinha que provar para eles que conseguiria, como ficaria a minha fama de Garota Inteligente se me acovardasse, não é mesmo? (Crianças, não sigam meu exemplo, esse nem sempre é um bom método para escolher o que você vai fazer pelo resto da vida.)

Gif do Barney, de How I Met Your Mother, dizendo “challenge accepted”.

Passei na prova (apesar de ter errado uma questão de propósito; outro exemplo para não seguir). Passei três anos incríveis no lugar que definiu muito do que eu sou hoje — e sobre o qual é melhor eu não começar a falar, pois é possível que eu não pare mais.

No meio do curso, depois de sobreviver a um ano e meio de EM e um semestre de curso técnico mal sabendo ligar um computador, eu percebi que gostava daquilo. Todos os manuais das TVs do meu pai que eu lera na infância começaram a fazer sentido. O amor pela minha agenda eletrônica começou a fazer sentido. A Garota de Exatas dentro de mim começou a aparecer e nunca mais se foi. Continuei gostando de ler, de escrever, de História, mas descobri que sou muito mais apaixonada pela Matemática, a Física, a lógica.

É engraçado pensar nisso agora, que estou em outro momento de transição, de Tecnologia para Produto. Não me entendam mal, eu não me arrependo dessa mudança, pelo contrário, descobri que a Gestão de Produtos é a área que une muitas coisas que eu sempre gostei de fazer e que não necessariamente estavam presentes nas minhas posições anteriores. É só que ainda causa estranheza quando clico na opção “Produto” em vez de “Tecnologia” ao preencher alguma pesquisa que pergunta sobre a área de atuação ou quando me perguntam com o quê trabalho.

Mas voltemos ao ano 2000 e também à novela.

Aquele não foi um ano importante apenas profissionalmente. Foi o ano em que comecei a sair do ninho.

Em 2000 ficou meu primeiro beijo, com meu então melhor amigo, no elevador de um hotel que já não existe, depois de uma palestra à qual nenhum de nós dois prestou atenção. Também ficou aquela amizade que quase virou namoro e, até hoje, quando chega novembro, eu me lembro dele com carinho e me pergunto o que poderia ter acontecido se eu não tivesse terminado tudo depois de um dia. (Com uma carta de duas páginas. Meu Deus! Adolescentes são meio ridículos, mas deixemos que sejam, pois, nós também já fomos. O que não mata, não apenas engorda como deixa boas lembranças para compartilharmos com estranhos na internet 20 anos depois.)

Em 2000 ficou minha primeira experiência de liderança, organizando uma turma de 30 adolescentes para aniversários e chás-de-panela, sem que as pessoas homenageadas sequer desconfiassem. Em 2000, eu fiz um bolo de chocolate sozinha, carreguei por vários quarteirões e peguei um ônibus com ele DESCOBERTO. (Se eu comeria esse bolo hoje? Claro que não! Mas, na época, pareceu uma boa ideia.)

Em 2000 meu mundo foi ampliado. Eu pegava ônibus sozinha todos os dias e era dona das minhas tardes, no Objetivo da rua José Faria da Rocha, em cima da Luciana Móveis. Também aprendi a ir ao centro de Belo Horizonte sozinha, me perdi várias vezes e aprendi a me localizar. Saía com os amigos, éramos quatro adolescentes i-n-s-u-p-o-r-t-á-v-e-i-s que faziam bagunça no Shopping Cidade e cantavam alto no fundão do 1121 enquanto voltavam para casa.

Em 2000, eu fiz amigos longe das asas da minha mãe. Aquele era o meu mundo, pra explorar, pra me descobrir. Um ano que me definiu, mas que também me ensinou a não me definir tanto, porque o mundo era muito maior do que eu imaginava.

Foto antiga de 9 adolescentes sentados nos paralelepípedos de uma praça, com post-its e uma citação de A Million Years Ago.
Foto antiga de 9 adolescentes sentados nos paralelepípedos de uma praça, com post-its e uma citação de A Million Years Ago.
Foto tirada em uma excursão do cursinho a Ouro Preto, em 12 de outubro de 2000.

Nada disso teria acontecido se não fosse aquele folheto. Eu não faço a menor ideia de onde eu estaria se não fosse aquele folheto. Talvez, eu acabasse encontrando o mesmo caminho em algum momento. Talvez, eu tivesse engravidado do garoto que quis ficar comigo alguns meses depois, e eu só não aceitei porque gostava de um colega do cursinho, como aconteceu com várias das minhas colegas, e hoje tivesse uma vida na qual não consigo me imaginar. Ou, talvez, eu acabasse me tornando, sim, uma Annalise Keating (menos arrogante e dona da razão, por favor) e estivesse ajudando a colocar chefes do tráfico e políticos corruptos na cadeira (outra vida na qual eu não consigo mais me imaginar). Nunca saberemos.

Head de Produto na Ao Cubo. Escrevo sobre produto e agilidade, mas também sobre séries, livros e assuntos aleatórios.

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