Inspired (Marty Cagan)

O livro que destrincha tudo o que você precisa saber sobre Gestão de Produtos

No princípio, era o Projeto, e o Projeto tinha um Gerente de Projetos, e o Projeto utilizava metodologias tradicionais de desenvolvimento de software. Durante um tempo limitado, pessoas assumiam funções específicas e cada etapa alimentava a próxima, até que algo pudesse ser entregue e as pessoas pudessem voltar para suas funções originais ou participar de novos projetos.

Com o advento da agilidade, o Projeto continuou existindo como conceito principal, mas o desenvolvimento em si começou a ser enxergado com novos olhos. Uma palavra ficou na moda como algo que todos os membros dos times deveriam ter, tão difícil de definir quanto de implementar, a tal da ownership. Mas é difícil ter o sentimento de propriedade quando você pode mudar a qualquer momento para outro projeto que possa estar precisando mais das suas habilidades, então, as empresas começaram a transformar suas equipes em squads e os projetos passaram a ser feitos sobre um ou mais produtos. O time de desenvolvimento saiu dos bastidores para assumir um papel de destaque junto a um novo protagonista no teatro do software: o Dono do Produto (ou Product Owner).

Qualquer pessoa que trabalha ou já trabalhou com tecnologia sabe que:

  1. Como diria Lulu Santos, “tudo muda o tempo todo no mundo”; e
  2. As linhas que delimitam cada função não são claras.

Assim, a função do Analista de Negócios se mescla à do Product Owner, que trabalha junto ao Gerente do Projeto, que se confunde um pouco com a função do Scrum Master e, nessa mistura toda, começamos a ouvir falar em Gerentes de Produto.

Tudo isso já aconteceu há anos. Porém, todos sabemos que, mesmo na tecnologia, algumas tendências demoram um pouco para chegar ao Brasil e, até Janeiro de 2020, em Belo Horizonte, sexta maior capital do Brasil em número de habitantes, muitos profissionais, mesmo nas empresas mais avançadas com relação à agilidade, ainda possuem uma grande dúvida: O que é um Gerente de Produto?

Nessa segunda edição de seu livro, Inspired, Marty Cagan se dedica majoritariamente a respnder essa pergunta de forma profunda, não apenas com uma definição da função, mas explorando as diversas competências que são necessárias para quem deseja assumi-la ao destrinchar como trabalham os grandes times de produto e ilustrar com perfis de pessoas que tiveram sucesso nos desafios da função.

O livro é dividido em 5 partes. Na Parte 1, Lessons from Top Tech Companies, Cagan discorre sobre algumas das empresas com as quais já trabalhou e o que pode ser útil de suas experiências, tanto para startups, quanto para empresas em crescimento ou grandes companhias já conhecidas no mercado.

A Parte 2, The Right People, define os papéis que podem ser encontrados dentro e ao redor dos grandes times de produto e é onde se encontra o capítulo que mais me marcou durante a leitura, o que lista as responsabilidades principais de um Gerente de Produto.

When a product succeeds, it’s because everyone on the team did what they needed to do. But when a product fails, it’s the product manager’s fault.

Para quem está começando, ler sobre tantos desafios pode ser desanimador, mas, a meu ver, é um choque de realidade necessário, um choque que é bom quando leva à ação. No meu caso, como estou atualmente procurando uma oportunidade na área de gestão de produtos, perceber que já possuo várias das competências descritas e já assumi responsabilidades similares em outras funções me motivou a buscar me desenvolver naquelas que não tenho tanta experiência.

Para quem já atua na função, essa parte pode ser útil para identificar algumas figuras que podem não estar tão bem definidas, mas que são importantes para elevar o trabalho de um time de produtos comum a um grande time de produtos.

A Parte 3, The Right Product, pode ser considerada o coração do livro. Tudo na gestão de produtos, tudo na agilidade, tudo no desenvolvimento lean gira em torno de construir o produto certo. Se parece óbvio, é porque é óbvio, mas está longe de ser fácil — se fosse fácil, não existiriam tantas técnicas, tantos livros e tantos fracassos.

Meu primeiro projeto como analista de negócios, em 2007 ou 2008, foi um sistema de auditorias para uma escola de inglês bastante conhecida em Minas Gerais. Esse foi um dos melhores clientes que eu já tive em 16 anos de profissão: Aberto, interessado, colaborativo, compreensivo. O time também era muito bom e eu, novata na função, tive total apoio dos meus gestores para fazer meu trabalho da melhor forma possível. O projeto foi um sucesso. Entregamos todos os requisitos no prazo, não tivemos muitos bugs, o cliente saiu satisfeito. Anos depois, voltei a trabalhar com o mesmo cliente. O principal stakeholder gostou de me encontrar, elogiou meu trabalho. Perguntei se eles ainda utilizavam o sistema que havíamos feito naquele projeto. Ele respondeu que nunca haviam usado, pois logo descobriram que não era o que eles precisavam.

Posso apostar com segurança que 100% das pessoas que trabalham com tecnologia já viveram ou ouviram uma história parecida e é por isso que as metodologias ágeis batem tanto na mesma tecla. No livro, são 10 capítulos sobre visão de produto, estratégias, roadmaps e outros conceitos relacionados, fechando com um dos perfis que achei mais interessantes, o de Alex Pressland, gerente de produto que trouxe a BBC para a era digital.

Na Parte 4, The Right Process, mais do que estabelecer um processo — algo temido por muitos times ágeis — Cagan traz um cardápio variado de técnicas para atividades de descoberta, prototipação, entrevistas, testes de valor, usabilidade, viabilidade etc. São 31 capítulos aos quais certamente voltarei diversas vezes para relembrar ou ganhar um novo olhar à medida que adquirir novas experiências.

Por fim, a Parte 5, The Right Culture, fala brevemente sobre as características de empresas que possuem uma forte cultura de produto, dando dicas de como incutir essa cultura nos times.

Apesar do título bonito, Inspired não é um livro fácil, que possa ser lido de uma vez só em algumas poucas horas. É uma leitura densa, que pede algumas pausas e anotações para absorver melhor seu conteúdo e saber como aproveitá-lo. Para mim, particularmente, foi um bom direcionamento de como explorar meus pontos fortes e desenvolver os que ainda demandam um pouco mais de treino. O livro também me ajudou a organizar todas as informações que eu já tinha e priorizar as minhas próprias necessidades.

A pessoa que me indicou o livro disse que é o conteúdo mais importante para quem quer começar uma carreira como gerente de produtos. Considerando os outros livros que li, blogs que acompanho, cursos que fiz, me arrisco a dizer que ela não mentiu.

Recomendo.

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Head de Produto na Ao Cubo. Escrevo sobre produto e agilidade, mas também sobre séries, livros e assuntos aleatórios.

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